Essa história não é sobre música, ainda que comece por ela.  

Esse jeito de ver a música influenciou a minha função de pai. 

Hoje em dia, nessa coisa de passar mais tempo em casa e também buscando aprender e crescer como músico, eu procuro consumir conteúdos legais sobre a incrível arte que é a música, e tudo que envolve o aprendizado contínuo de incorporar elementos nas composições, conhecer e curtir uma nova escala, adaptar e misturar influências de outros estilos para além do rock nas músicas do Cartel, enfim. O mais legal dessa época louca que a gente vive é justamente ter tanto acesso ao conhecimento. Basta escrever na barrinha de busca e pimba, tá ali aquele puta guitarrista dando uma dica de mestre sobre modos gregos, por exemplo. Modos o quê?  

Bom, eu vou confessar uma coisa - na verdade, duas coisas. A primeira delas é que eu tenho bastante dificuldade de entender a música, no sentido mais profundo mesmo, de compreender como as coisas na música funcionam de verdade. Sei que a música tem, na sua essência, uma base matemática e as coisas são, num certo nível, bastante lógicas - e talvez por ter passado várias vezes de ano no colégio com as calças na mão em matemática, eu tenha uma certa incapacidade para realmente querer aprender essa parte. A outra coisa que eu vou confessar (bem baixinho aqui) é: em alguma medida eu até gosto de não saber muito de teoria musical. Sei que isso não faz muito sentido. Talvez por que desde pequeno eu trilhei um caminho de aprendizado prático, tirando muita coisa 'de ouvido' como se diz e praticando um autodidatismo meio esquisito, acabei ao longo dos anos sendo meio 'cabeça dura' em manter essa perspectiva presente. Mas do jeito que deu, fui agregando conhecimento técnico sempre que possível, especialmente aprendendo com meus parceiros de Cartel.  

Eu acho que a gente sempre faz o que pode, não o que quer. Talvez eu goste da ideia de me comparar com alguns grandes músicos que também não conheciam lá grande coisa de teoria musical e - olha que afude! - fizeram sonzeras incríveis, tocantes, energéticas. Por que a beleza também está em deixar as coisas fluírem por si só - claro, tendo uma noção mínima e adequada do que tá acontecendo e, sobretudo, com intencionalidade para que a intervenção com o instrumento faça sentido. Nosso canário Igor Assunção sempre diz, sabiamente: "tudo tem que ajudar a canção", ou seja, a firula pela firula não diz nada se, no final, ela não ajudar uma composição em especial a ficar mais bacana e, na soma geral, divertir e tocar quem curte aquele tipo de som.  

Mas essa história não é sobre a música, como eu disse no início. Ou não é só sobre música. A ironia disso tudo é que, de alguma forma, esse jeito de ver a música influenciou o jeito que eu ver minha função de pai. O Francisco nasceu no final de dezembro de 2019 (uns três dias antes do primeiro caso do coronavírus ser reportado na China e iniciar esse ano surreal que estamos vivendo), e talvez a coisa que mais pensei antes dele nascer era justamente tentar não antecipar nada, não ficar ansioso e tentar aprender na prática, mesmo sabendo que era algo que mudaria minha vida pra sempre - assim como foi a música.  

Assim como na música, eu não tinha (e ainda não tenho) a pretensão de entender em detalhes como funciona ser pai. Pra mim, mais do que entender a lógica, é fundamental prestar atenção e ouvir; é importante e divertido fazer 'firulas' e coisas que impressionam, mas elas precisam fazer sentido no contexto geral da vida do Francisco; é preciso sempre ter um pouco de conhecimento técnico, mas se aprende muito fazendo, errando e vivendo a experiência. A primeira vez que me descuidei e deixei o Francisco cair me doeu muito - mais do que errar notas na frente de milhares de pessoas. Mas é errando que se erra, e só errando para subir um degrauzinho a mais e aprender. 

As pessoas que me inspiram a ser pai - incluindo o meu próprio pai, mas também alguns grandes amigos da vida - certamente carregaram pra sua própria jornada muito aprendizado e inspirações, mas sem se esquecer de deixar algumas coisas fluírem por si só, de se divertir, de viver cada dia intensamente, de errar, de pensar nos erros e de melhorar. Vou confessar uma terceira coisa: se a arte imita a vida como se diz, essa história era sobre música, afinal de contas.

 

Texto Por Nando Rosa

2 comments

  • Cicero Jardim
    Cicero Jardim Porto Alegre
    Perfeito Nando, técnica é muito importante, mas aquele sentimento de surpresa aonde realizar algo de bom é essencial!

    Perfeito Nando, técnica é muito importante, mas aquele sentimento de surpresa aonde realizar algo de bom é essencial!

  • Carmencita Hessel
    Carmencita Hessel Pipa
    Que lindo Nando adorei parabéns

    Que lindo Nando adorei parabéns

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