Rockeiro é tudo do contra! 

Será? Antigamente eu concordo, éramos mesmo. Hoje somos velhos, dispostos a comportamentos reaça e com uma baita dificuldade de continuar o nosso caminho de contracultura.

Não me entendam mal. Não penso que todo o rockeiro é cuzão, reaça, cheio de si e com uma dificuldade gigante de ter uma comunidade pra chamar de sua. Ou como alguns gostam de dizer, uma "cena" para chamar de sua. Mas é inegável que o rock, com o passar dos anos, foi se distanciando cada vez mais das suas origens de revoluções, não há a menor dúvida. 

Ná década de 50 por exemplo, onde muitos dizem se tratar da década em que o rock nasceu, o que tivemos foi uma revolução, antes de mais nada racial, impulsionada por uma revolução musical. Ou seria o contrário?  

O fato é que bem antes disso, nas décadas de 1910 e 1920, já se escutava elementos do rock n’ roll em gravações de country e de blues. Muitos brancos norte-americanos experimentaram já nesta época o jazz e o blues, estilos que frequentemente, se não usualmente, eram taxados como “race music” ou música de raça. E mesmo assim, apesar da música ser claramente taxada de negra, poucos músicos afro americanos de rhythm and blues alcançaram algum sucesso. O processo de desenvolvimento do rock n’ roll foi evolutivo, ou talvez revolutivo

Entretanto a palavra ou gíria “rock / to rock” já era utilizada  como metáfora para sacudir, perturbar ou incitar e em 1937 Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram "Rock It for Me", que incluía na letra o verso So won't you satisfy my soul with the rock and roll. (Então, você não vai satisfazer a minha alma com o rock and roll.) Já o termo “Rocking” era usado por cantores negros gospel no sul dos Estados Unidos para dizer algo semelhante ao êxtase espiritual. Na década de 1940, no entanto, o termo foi usado um duplo sentido se referindo a dançar e a transar, como em "Good Rocking Tonight", de Roy Brown. 

Já o verbo “roll” era uma metáfora que remonta desde a época medieval que significava sexo. Durante séculos, escritores usaram expressões como They had a roll in the hay (Eles tinham um rolo no feno) ou I rolled her in the clover (Eu transei com ela no trevo). Os termos eram muitas vezes utilizados em conjunto (rocking-and-rolling) para descrever o movimento de um navio no mar, por exemplo, como na canção Rock and Roll, das Irmãs Boswell, em 1934, que apareceu no filme Transatlantic Merry-Go-Round' (literalmente, Transatlântico Carrossel), naquele mesmo ano, e na canção "Rockin 'Rollin' Mama", de Buddy Jones em 1939. O cantor country Tommy Scott se referia ao movimento de um trem na ferrovia em Rockin e Rollin, de 1951. 

Contudo, não existe um registro único que pode se cravar “este é o primeiro disco de rock” mas alguns candidatos para este título poderiam ser "Strange Things Happening Everyday" de Sister Rosetta Tharpe (1944); mulher, negra e guitarrista - não teve o merecido destaque e parece que para a maioria dos rockeiros foi descoberta semana passada; "Rock Awhile" de Goree Carter (1949) - homem, negro e multi instrumentista;  "Rock the Joint" de Jimmy Preston (1949) - que era saxofonista, cantor e líder de diversas bandas e também negro; Mas, sem surpresa alguma, o que ouvimos e conhecemos desde sempre é que foi  Bill Haley & His Comets, uma banda de brancos, que em 1954 teriam sido os responsáveis por “inventar” o rock com sua música “Rock Around The Clock”. 

Esta era uma época de pesada segregação racial nos Estados Unidos, e sem dúvida alguma o rock n’ roll, aquela “música de raça”, encantou e porque não, ajudou a libertar aquela juventude.  Bailes multirraciais foram realizados pela primeira vez para curtir o rock n’ roll. Cortesia do DJ  Alan Freed, também conhecido como "Moondog", que assistindo o inevitável começou a produzir os, por assim dizer, primeiros festivais de rock que revolucionaram uma sociedade inteira. 

Na década de 60 o rock deixou de ser o som dos jovens e começou a ocupar as paradas de sucesso. Afinal, foi a época que quatro guris de Liverpool explodiram para a Europa e os EUA. Mas além do sucesso atômico dos Beatles, foram anos de constante evolução e gradativamente o rock ganhava múltiplas faces e inúmeros subestilos. É claro que no início da década as “modas” do final dos anos 50 continuaram, mas aos poucos foram se mesclando com outros elementos e se transformando em uma variação mais eclética e intercontinental.  

Gradualmente, começaram a surgir estilos como o  pop rock, beat, psychedelic rock, blues rock, progressive rock, folk rock e muitos outros. O estilo com influências mais folk e country que está associado com o final da década “lançou” o que até hoje conhecemos como “singer/songwriter” que nada mais é do que cantores que escrevem e cantam suas próprias canções.  

O mais famoso deles, Bob Dylan, contestava publicamente as políticas de guerra aplicadas pelo seu país na Guerra do Vietnã, e apoiava todas e quaisquer manifestações antiguerra ao redor do planeta. 

Foi nessa levada humanista que organizaram o Festival de Woodstock, um símbolo contemporâneo de jovens que buscam liberdade de expressão, liberdade sexual, paz e amor. E puta merda, que bela revolução esses rockeiros arrumaram pra gente. Obrigado rockeirada do final dos 60, vocês são foda! 

O rock nos anos 60 foi a época de várias lendas como Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Jefferson Airplane, Led Zeppelin, The Doors e Pink Floyd, entre tantos outros nascerem.  

No Brasil, em harmonia com o movimento rock and roll do mundo, iriam surgir nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Secos e Molhados, Mutantes, Novos Baianos, que faziam parte da Tropicália, que misturava o som das guitarras elétricas com os mais variados gêneros da música de raiz nacional. 

Já nos anos 70 a coisa ficou louca pra caralho, literalmente. Não digo só pela revolução química que, iniciada na década anterior, decolou feito um  foguete nos anos 70 abraçada no rock n’ roll psicodélico e progressivo. Não era só para os amantes de LSD, maconha ou outras substâncias enteogênicas ou alucinógenas que o rock n’ roll se apresentava. Ele cada vez criava novos galhos, novos caminhos, se multiplicava e evoluiu e com ele trazia uma revolução por cada “cena” que passava. Nesta década tivemos o nascimento de subgêneros que são gigantes e importantes até hoje como Hard Rock, Glam Rock, Art Rock e Heavy Metal mas foi o Punk Rock que demonstrou a maior disposição visceral para sacudir as coisas.

Com músicas rápidas e ruidosas, que abordavam ideias políticas anarquistas, niilistas e revolucionárias, também abordavam em suas letras problemas sociais como o desemprego, a guerra, a violência e drogas; ou o contrário disso: temas como relacionamentos, diversão e sexo. O visual agressivo e rasgado, chocante, que fugia dos padrões da moda e da socialização, a linguagem chula, a filosofia "faça-você-mesmo" (Do It Yourself em inglês, ou, numa sigla, DIY), a imagem "anti-ídolo" e atitudes destrutivas também são outras características do punk; embora nem todas as bandas sigam tal padrão. Eles vieram para sacudir e revolucionar o próprio rock.O movimento punk surgiu como um contraponto da ideologia dos hippies, uma reação à não-violência e suas atitudes. Inicialmente era chamado de cultura punk, depois passou para movimento, e depois uma ideologia, onde os jovens seguiam o mesmo lado político, maneira de se vestir, gosto para música, cinema, artes e etc. Apesar de visões políticas distintas da minha, foi claramente uma revolução dentro da própria revolução e merece todo o respeito. 

Impossível não destacar também o Hard Rock e Heavy Metal. Com o lançamento do primeiro demo do Black Sabbath em 68, toda a onda do “NWOBHM”, AC/DC, KISS, Motorhead… O peso nascia e vinha com força para mudar a vida de muita gente também. 

E então chegam os dias das cabeleiras, calças fusô*, e riffs inacreditáveis de guitarra.
* ou spandex em inglês - , que eu acho que hoje chamaríamos de leggin. A década de 80 foi a era do rock n’ roll “larger than life” ou “maior que a vida”. Tudo era enorme, exagerado, mais alto, mais rápido, mais técnico e mais tecnológico. Essa época proporcionou uma chance de ressurgimento ou talvez solidificação para o rock pesado e também abriu espaço para o Glam Rock. 

Bandas como  AC/DC, Queen, Def Leppard, Kiss, Mötley Crüe, Bon Jovi, Quiet Riot, Scorpions, Europe, Ratt, Twisted Sister, Poison, Dokken e Whitesnake bombavam sem parar e algo ainda mais fantástico acontecia nas entranhas do rock. O Heavy Metal tomava forma e o Rock Alternativo tentava rasgar seu caminho para o mundo.  

Artistas como Iron Maiden, Judas Priest e Dio já começavam a fazer sucesso na cena britânica. Assim como Motorhead, que lançava um disco atrás do outro. Ainda tivemos Slayer, Metallica, Anthrax, Exodus e Megadeth nos EUA… No lado do rock alternativo tudo ainda era underground e embrionário mas já ouvíamos falar de R.E.M, Nine Inch Nails, Sonic Youth, Janes Addiction, Pixies e a semente do que viria ser o grunge na década seguinte Mudhoney e Nirvana. 

Talvez os gringos estivessem ocupados demais cheirando cocaína e usando heroína ou eu que sou sequela mesmo e não consigo ver revolução nenhuma nesta década (a não ser que tu conte o nascimento da MTV como algo revolucionário para além da industrialização e plastificação exacerbada da música) mas aqui no Brasil o bicho tava pegando. O rock dos anos oitenta no país tupiniquim explodia com todo o mal cheiro de suor, gritaria, letras questionadoras e energia necessária para impulsionar uma sociedade inteira de jovens às ruas para lutar pela democracia.  

Em 1984, houve o Movimento Diretas Já, que reivindicava a volta das eleições diretas para Presidente da República e que levou milhares de jovens às ruas. O que acarretou, em 1985, no fim do regime militar e na eleição indireta de Tancredo Neves à presidência – que acabou morrendo antes mesmo de assumir o cargo e sendo substituído pelo, então, vice-presidente José Sarney. Só em 1989 foi acontecer a primeira eleição direta para Presidente da República, elegendo Fernando Collor de Mello. (já dava pra ver por esse início que a gente tem uma baita dificuldade com essa tal de democracia né hahaha) 

O sentimento, em meio a esse turbilhão de acontecimentos no país, era de revolta e patriotismo. O início da abertura política trouxe consigo também a possibilidade de se fazer música de forma mais simples e direta do que as gerações que enfrentaram a censura faziam, como a Tropicália. Em busca de uma nação melhor e mais justa e inspirados pela explosão do rock mundial, os jovens brasileiros da época buscavam representação, liberdade de expressão e identidade, em meio a uma revolução sociocultural que estava acontecendo. 

Os gêneros Punk, Pós-Punk e New Wave, que possuíam características mais agressivas, influenciaram esses jovens a formar a famosa “Geração 80” do Brasil, com arranjos mais fortes, letras politizadas e que prezavam pela liberdade de expressão. Eram bandas vindas de diversas regiões do país, cada qual com suas singularidades e referências.  

Engenheiros do HawaIi, Replicantes, Titãs, Barão Vermelho, Ira, RPM, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Capital Inicial e claro Legião Urbana questionaram, junto com tantas outras bandas, qual era a cara do Brasil. Que tipo de país queríamos ser, que tipo de pessoas éramos e também que atos espúrios rolavam na capital do país. Isso também foi revolução. 

Não vou negar, e respeito muito, a estética dos anos noventa, seus estilos e principalmente sua características legítimas das artes criadas na época. O rock alternativo, o rock californiano, o skate punk, o ska punk e o grunge com suas texturas e cores únicas.  

Mas ao mesmo tempo não consigo verificar uma evolução clara apresentada para a sociedade como  as épocas anteriores o fizeram. Parece que nos anos 90 os rockeiros ficaram deprimidos, depressivos, enlatados e propensos a dar chiliques em frente as câmeras da Music Television para pagar de roqueiro malvadão, drogadão e alternativo. Pra mim a grande maioria era tudo poser. Passaram a ser apenas entretenimento pré-formatado, “taggeados” pelas paradas de sucessos manipuladas do mercado mundial encabeçadas pela MTV. Domesticados ao prazer das grandes corporações que ditavam o que eles deveriam fazer, o que deveriam vestir, que tipo de música deveriam compor ou gravar e principalmente que tipo de videoclipe iria levá-los às paradas de sucesso e fama. Ao mesmo tempo em que mandavam um dinheiro grosso pro bolso das grandes gravadoras. 

Não to dizendo que não tem nada de bom na década de 90, pelo contrário. Tem muita coisa boa como Red Hot Chilli Peppers, Nirvana, Foo Fighters, Alice In Chains, Pearl Jam, Green Day, Offspring, Faith No More, Rage Against The Machine, Tool, Dream Theather… E não podemos nos esquecer que o metal e o hard rock explodiram para o mainstream com Black Album do Metallica e também os “Use Your Illusion 1 e 2 do Guns and Roses e alguns outros álbuns icônicos da época… quero dizer… teve muita, mas muita música boa sendo feita e produzida. Feita com “sangue no zóio” boas pra caralho, que embalaram minha juventude e me influenciaram para sempre. Mas ainda assim, que Dio me perdoe pelo que falarei, parece que com um pouco menos de alma do que nas décadas anteriores? (será que to forçando a barra?) 

Enquanto isso no Brasil acho que estávamos indo basicamente pelo mesmo caminho. Tirando O - Searching for the Light, da banda carioca de thrash metal Dorsal Atlântica, que foi influenciado pelo livro 1984 de George Orwell; do Angra lançando seus primeiros discos; do Sepultura alcançando o merecido sucesso mundial;  O resto era água com açucar. 

Claro, o surgimento de festivais alternativos foi muito importante para a divulgação do cenário independente, como o Abril pro Rock, em Recife, que foi algo sensacional. De lá foram arrancados e forjados a mentiras - contadas pelo produtor musical Miranda - inúmeras Novas Cenas de Rock pelo Brasil. Os movimentos Manguebeat, Forrócore, Rock Onanista ou “Humor” Rock, foram literalmente criados a partir destes festivais e da cabeça do Miranda com o apoio da Revista Bizz (tá tudo no documentário “Sem dentes: Banguela Records e a turma de 94” é só assistir). 

Tá, mas e daí só por que a cena foi inventada, impulsionada e vendida por uma revista e um produtor maluco que botava pra quebrar, isso não tem méritos? Claro que tem, e muitos! Ouvi muito dessa geração de rock brasileiro e sem dúvidas moldaram meus gostos musicais. Tem banda foda pra caralho nessa geração como Raimundos, Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., Nação Zumbi, Planet Hemp…. 

Só que daí o que aconteceu quando o Miranda “enganou” todo mundo sobre as novas cenas que estavam estourando em todo o Brasil mas que na verdade era uma fita cassete com as bandas de um festival no recife? As grandes gravadoras voltaram a apostar em grupos novos, através de pequenos selos, como Chaos, pertencente à Sony Music e Banguela Records, criado pelo Carlos Eduardo Miranda, o lendário e saudoso Miranda e os Titãs e distribuído pela Warner Music.  Isso é ruim? Acho que não, e longe de mim querer criticar o rock bobagento dos anos 90 (eu gosto pra caralho e reflete no som do Cartel da Cevada até hoje, sem dúvidas) mas o que eu me pego pensando é: não te parece que o rock daqui também estava sendo domesticado? Mesmo com o humor, as letras falando só de sexo e putaria e coisas engraçadas, não me parece agora, olhando para trás algo que fosse destrutivo, no melhor sentido da palavra. Não parecia que vinha para mudar nada, parecia mais um passatempo, entretenimento, coisas engraçadas para passar no domingo à tarde em algum programa de auditório e fazer os jovens bater cabeça e os adultos darem umas risadas com as letras de duplo sentido.  

Dos anos 2000 em diante parece tudo mais do mesmo pra mim. Nem vou falar sobre os mods, emos e restarts. Não porque não respeite a cena e a importância deles para colocar o rock na vida de um monte de gente, mas porque já escrevi seis páginas e ainda quero postar este texto no dia do rock e não no dia depois do dia do rock hahahaha. Mas resumindo, MTV e grandes gravadoras mandavam em tudo, teve boom da internet, teve a facilitação para artistas independentes colocarem as suas músicas na internet ao lado dos artistas preferidos de todo mundo, tem festival pra tudo que é lado, tem Youtube, tem Spotify e claro tem muita, mas muita banda boa. Mas eu ainda sinto que o rock anda meio sei lá, rebelde sem causa. Há 40 anos anda por aí, ainda com vários expoentes gigantes das décadas passadas, muita gente boa fazendo um som afude, de qualidade, mas ainda assim me parece que falta alguma coisa. Talvez um pouco de alma, talvez um pouco de causa. 

E aqui faço um mea culpa. Porque também ando tropeçando pelos caminhos do rock para tentar achar que papel social o rock deveria encarar como o desafio a ser vencido. Qual o mal que aflige a sociedade que a gente deveria apontar o nosso dedo fedorento? De que jeito e porque a gente muda a perspectiva de alguém? O Cartel da Cevada sempre se propôs a fazer um som divertido, pesado e alegre, para que as pessoas que fossem no nosso show pudessem esquecer dos seus problemas. Nem que fosse por algumas horas. Acho que isso é válido, acredito que nossa identidade esteja muito bem estabelecida e nosso propósito é fazer rock e se divertir divertindo as pessoas ao nosso redor no processo, mas também me sinto um pouco sem alma às vezes, sabe. 

Qual será o caminho do rock? De que maneira bandas e artistas do estilo poderiam contribuir para dar uma sacudida na sociedade para que ela reveja seus conceitos? Será que isso é problema do rock? 

Eu não tenho as respostas para estas perguntas, mas seria muito afude encontrar pessoas que também não as tem para quem sabe juntos a gente descobrir.

 

Especialmente produzido para o Dia Mundial do Rock de 2020. Escrito por Igor Assunção

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