Contos Cartélicos: A Barbada

Suas espadas e lanças foram empunhadas com a força da paixão pela terra e então soube que estávamos prontos para ir. Tomei um último trago. Exército nenhum, independente do seu tamanho, jamais fica sem bebida, e não há forma melhor de liberar o nervosismo e criar coragem antes de um combate do que uns bons goles de cachaça.

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Os minutos passavam loucamente e ao mesmo tempo arrastavam-se numa lentidão enervante. Os homens tentavam não pensar na situação de inferioridade que estendia-se à nossa frente; somente na cidade que seria alvo de nosso ataque-relâmpago, a proporção era de pelo menos dois inimigos para cada um de nós. E incontáveis outros estavam naquele mesmo momento rumando para assolar nossa terra. Nossa esperança residia apenas no fator surpresa, pois os invasores não tinham como esperar essa investida. Tínhamos a chance de reaver nossa cidade natal, tirando-lhes importante ponto estratégico e rearranjando nossas tropas, apenas para dificultar e retardar o que era praticamente inevitável - a conquista e desmantelamento de nosso pago por uma junta terrível de turbas de três ou mais escórias diferentes, lideradas por um único e improvável líder. 

O inimigo tinha manipulado bandos bem distintos uns dos outros - e de uma forma que não conseguíamos compreender, como em um gigantesco tabuleiro, manobrava-os coesos, em direção às nossas fronteiras. Havia um rincão ainda livre a sudoeste do pampa, um pessoal de sotaque estranho e nariz empinado que tinha fama de peleadores, mas eles deviam estar mais preocupados com a própria sobrevivência do que em ajudar-nos, apesar de que se houvesse um pouco mais de juízo ou inteligência na cabeça de seu governante ou de seus conselheiros, veriam que a melhor forma de defender-se seria reforçando nossas reduzidas legiões, algumas formadas às pressas. Deveriam imaginar que, se caíssemos, eles seriam os próximos a receber a desagradável visita dos exércitos invasores. 

(...) 

Após as tensas horas de viagem, finalmente adentramos a floresta que cercava a cidade. Sorrateiros como lobos ao avistar uma lebre, nos aproximamos da borda interior, preparando a formação para o combate. Éramos mais de uma centena, não muito mais, enquanto os indesejáveis ocupantes de nossa cidade somavam quase três centenas. Desceríamos alguns metros num leve declive da borda até as primeiras construções e avançaríamos inexoravelmente até a praça central da cidade, onde como uma avalanche trucidaríamos os inimigos despreparados, muitos sem armas ou armaduras. A guerra não é uma coisa bonita ou honrada, como as lendas e as canções fazem parecer, apenas jogadas de astúcia ou pura força, de preferência no flanco mais desprotegido do oponente. 

Esperávamos reduzir o número de adversários pelo menos até igualar nosso contingente, quando então o fator surpresa já teria desaparecido, mas tendo separado-os em partes e isolado-os de seu principal suprimento de armas - o qual eu e meus companheiros havíamos descoberto em uma furtiva missão anterior - a vitória seria possível, contanto que mantivéssemos a disciplina e a força concentrada no braço das lanças e espadas. 

Pouco antes do comandante da nossa guarnição dar o sinal para o ataque, um lampejo percorreu minha mente. Vi o sol quase se pondo atrás do monte em cujos pés corria o riacho no qual banhei-me tanto em anos passados. Encostados na grande pedra ao lado estava, além de alguns comparsas, um grande aventureiro, que os habitantes da cidade chamavam de "forasteiro amigo" mas que eu simplesmente chamava de pai, e a simples lembrança me preencheu com uma torrente de emoções conflitantes - como saudades dos bons tempos e raiva pelo que acontecia ao nosso lar, só pra citar algumas - e quase que hipnoticamente comecei a falar em voz alta e firme.  

- JÁ DIZIAM UNS BAGUAIS DA MINHA TERRA: NÃO IMPORTA A LOUCURA QUE FAÇAS, O SOL NASCE PRA TODOS! NESSE MUNDO TEM MUITO MALANDRO, MAS A SOMBRA É PRA POUCOS !! HOJE ESSES MALANDROS VÃO PAGAR !! 

A massa foi à loucura. Depois daquela Barbada, não tínhamos como fracassar. Enquanto falava, vi a expressão dos homens fechar e a luz de seus olhos brilhar. Suas espadas e lanças foram empunhadas com a força da paixão pela terra e então soube que estávamos prontos para ir. Muitos daqueles guerreiros não eram naturais dali, mas os fiz sentir como tal, como se fossem seus amigos, familiares e mulheres que tivessem sido oprimidos pelos inimigos. Tomei um último trago. Exército nenhum, independente do seu tamanho, jamais fica sem bebida, e não há forma melhor de liberar o nervosismo e criar coragem antes de um combate do que uns bons goles de cachaça. 

Após meu olhar cruzar com os de meus companheiros, foi dado o sinal para a carnificina começar.   

Naquele dia o inimigo comeu o pão que o Diabo Bagual amassou. 

(...) 

Conto Cartélico inspirado na ópera rock bagual 
Cartélico - vol. 1 - Fronteira, Trago e Querência 

 

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