Contos Cartélicos: “DEARLY DEPARTED”

"Sorri, mas de nervoso. Ninguém desafiava o Diabo e se livrava."

“DEARLY DEPARTED”

“EU TE DEI TUDO. TE ABRIGUEI SOB MINHA ASA. DE BRAÇOS ABERTOS TE TROUXE PRA FAMÍLIA. MAS ESSA NOTÍCIA ME SUGOU A VIDA. TE TORNOU UM INIMIGO! E EM BREVE, MEMBRO DOS ‘SAUDOSOS FINADOS’.”, diziam as primeiras palavras. Eu conseguia ouvir sua voz, tão única e característica, a cada linha. Chegava a ser reconfortante, por absurdo que pudesse parecer. Eu deveria estar assustado por ter encontrado aquele envelope negro que tantas vezes vira - por vezes, até o entregara - mas sentia-me, de certa forma, aconchegado. Por mais que eu tivesse pisado feio na bola, ainda assim tinha ganho o direito de receber uma carta. Ela continuava. 

“NÓS ÉRAMOS MELHORES AMIGOS. PENSEI QUE ISSO JAMAIS ACABARIA. O QUE ACONTECEU COM O CARA QUE EU CONHECI? TU SEMPRE ME PROTEGEU ENQUANTO AS BALAS VOAVAM. NÓS TÍNHAMOS TUDO! MAS EU NÃO VOU ACEITAR. EU JAMAIS VIRARIA AS COSTAS PARA OS MEUS. AMALDIÇOO O DIA QUE DESCOBRI QUE TU TAVA ME VENDENDO. AGORA TODOS SABEM. TU, POR AÍ, CANTANDO COMO UM PASSARINHO, VAZANDO AS ENTRANHAS COMO UM RATO IMUNDO”.  

Palavras duras, mas infelizmente fundamentadas. Eu realmente cantara alto demais. Me ofereceram muito pelos seus segredos. Me ofereceram proteção caso eu dissesse o que queriam. Confesso que titubeei, que cheguei a sentir um nó na garganta ao pensar em como a notícia seria recebida. Mas eu estava cansado. Nós tínhamos tudo, de fato, mas o preço estava sendo demasiado pra mim. Então eu te traí. 

“QUANDO CHEGAR A HORA, PODE CHORAR O QUANTO QUISER; CHORAMINGAR, IMPLORAR, NADA DISSO VAI TE SALVAR. AS CARTAS NUNCA MENTEM, TU BEM SABES. SUSPEITEI, DESCOBRI E AGORA É TARDE. NÃO ME DIGA QUE SE ARREPENDE, POIS NINGUÉM ESTÁ MAIS ARREPENDIDO DO QUE EU”. 

Assim terminava a carta, subscrita com o símbolo que ele sempre desenhava ao final de qualquer coisa que escrevia - de seus temíveis e traiçoeiros contratos, até simples bilhetes, setlists, rascunhos de letras de músicas -, um esboço de rosto com o cenho franzido, sorriso maléfico, encimado por chapéu e chifres. 

Sorri, mas de nervoso. Meu fim estava próximo, eu sabia. Ninguém desafiava o Diabo e se livrava. Ainda sorrindo, senti um fio de suor frio escorrer solitário da têmpora esquerda. Engoli em seco, fechei os olhos e pensei por alguns instantes no paraíso que eu tinha escolhido como meu futuro esconderijo. Teria que ir mais longe do que nunca, trocar de nome, aquela coisa toda. Mas tudo bem, receberia uma bela grana e teria a chance de recomeçar, longe de tudo. Cheguei a pensar que daria certo. Mas esse envelope contradiz tudo. Eu, mais do que ninguém, deveria imaginar que seria arriscado demais. Resolvi apostar… e perdi tudo.  

Levantei finalmente a cabeça. Pelo reflexo do vidro, vi a silhueta escuro-avermelhada poucos passos atrás de mim. Chapéu, chifres, botas, esporas, boleadeira e claro, o facão. Afrouxei o lenço do pescoço e larguei-o na escrivaninha. Não valia a pena manchá-lo com meu sangue traidor. 

 

Leonardo Bacchi
Conto cartélico baseado na música “Dearly Departed”
do disco “Men of Honor” do Adrenaline Mob (2014)

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