Contos Cartélicos: Nigga Bigga Jairo

Todo mundo sabe que nós gostamos de contar causos e histórias através da nossa música. No nosso segundo disco, “Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência” fomos para um nível de complexidade bem alto, usando todas as músicas de forma conectada para contar uma grande história - o chamado álbum conceitual. Mas desde o nosso primeiro disco (“Cartel da Cevada”) buscamos contar histórias que, na maior parte das vezes, tem como tema algum personagem específico. Hoje vamos contar a história da música “Nigga Bigga Jairo”. 

Na ilustração o "Papafigo". Arte de Rodney Buchemi e cores de Adriano Augusto.

  
Em tudo que é lugar do mundo tem história feita para assustar criança. Colocam bicho feio em história sem pé nem cabeça pra fazer a piazada se comportar. Nessa linha, e pelo menos aqui pelo Sul, todo mundo já ouviu, pelo menos uma vez, a história do Véio do Saco. Mudam os guris, os pais, a cidade... mas sempre segue na mesma linha: ele vai te pegar. Te liga. Te comporta. Bom, nosso antigo baixista Richard Zimmer lembrou que ali por Santo Antônio da Patrulha tinha uma história assim. Um cara desses. Que virou lenda da noite pro dia na cidade. Daí é que chega a história do chamado “Jairão”. 

Mas quem nunca ouviu falar sobre “o homem do saco” ou para os mais novos ‘o velho do saco”? Como a gente comentou, trata-se de uma lenda que tem por objetivo assustar as crianças que não obedeciam os pais, daí eles falavam: “se não for dormir o velho do saco vem te buscar” ou “se me responder chamo o velho do saco pra te pegar”. Mas será que há algum fundo de verdade?  

Na realidade, a história não traça o perfil de vilão que vai buscar a criança malcriada ou que não quer dormir no horário. Ela remete ao trabalho dos carteiros, até porque em 1913, por exemplo, era comum enviarem crianças pelo correio com selo pendurado em suas roupas. Elas iam de trem numa espécie de sacola que ficava presa ao ombro do “homem do saco”. Isso acontecia quando as famílias queriam livrar as crianças pequenas de locais com incidência de doenças contagiosas, pobreza extrema ou mesmo para a doação, quando os pequenos eram dados à adoção para outras famílias. O que na época era legal e muito comum. Segundo relatos, as crianças tinham tanto medo de serem doadas ou saírem de perto de seus parentes, que só de ouvirem o nome “carteiro” já associavam ao “homem do saco”, aquele que levou o vizinho pequeno ou o irmão mais novo para longe, e eles entravam em pânico.  

Outro nome também usado é o “papa-figo”. Segundo a crença popular, o fígado era o produtor de sangue e a cura para a doença estaria no consumo de um fígado sadio. Portanto, o fígado das crianças por ser mais puro, era o que deveria ser consumido para quem sofria dessa enfermidade. Em algumas versões da lenda, o Papa-Figo possui ajudantes que atraem as crianças e leva as vítimas para ele. Em outras, ele mesmo atua na captura das crianças, sendo simpático com elas e lhes oferecendo doces e brinquedos. 

Segundo o antropólogo Luís da Câmara Cascudo em Geografia dos Mitos Brasileiros (1947): 

O papa-figo é como o lobisomem da cidade, que não muda de forma, sendo alto e magro. Diz-se que é um velho negro, sujo, vestido de farrapos, com um saco ou sem ele, ocupando-se em raptar crianças para comer-lhes o fígado ou vendê-lo aos leprosos ricos. Em outras regiões é muito pálido, esquálido, com barba sempre por fazer. Saí à noite, às tardes ou ao crepúsculo. Aproveita para as saídas das escolas, os jardins onde as amas se distraem com os namorados, os parques assombrados. Atrai as crianças com disfarces ou mostrando brinquedos, dando falsos recados ou prometendo levá-las para um local onde há muita coisa bonita”. 

A nossa contribuição para toda essa história e para expandir através da música o nosso folclore gaúcho, foi compondo “Nigga Bigga Jairo” lá no início dos anos 2000, e esse processo nasceu com algumas dúvidas: “se em quase todo lugar do RS tem um véio do saco que apavora o imaginário da criançada, de onde será que esse cara saiu? O que poderia ter acontecido com ele antes dele virar uma lenda?”. Bom, sabe o que aconteceu? Confere aí.

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