Contos Cartélicos: O que você disse, forasteiro?

A palavra proferida nas ruelas da cidadela, sempre à boca-pequena por grupos suspeitos e estrangeiros, era algo sagrado ou profano? Trazia alegria ou receio? Os locais não ousam falar, as mulheres cobrem os olhos e ouvidos, ou cantam louvores sob a luz da lua cheia?

Ele chega à cavalo sob forte chuva, na noite escura e fria e ao final de uma estrada longa demais para apenas um dia de cavalgada. Ao final de uma colina um pouco íngreme, já pode escutar alguns sons de atividades humanas, ainda baixos sob o forte barulho da água tilintando na face do escudo, preso às suas costas.

No portão de entrada, o sentinela, burocrático e obeso, não faz menção de impedir sua entrada no vilarejo, nem mesmo de confiscar ou inspecionar suas armas. Apenas acena com a ponta do seu capuz de couro de grifo, sem se mexer em sua guarita fria e improvisada, como se estivesse resignado em saber que nada pode fazer caso algum intruso mal-intencionado tenha acesso - e afinal, que interesses escusos alguém pode ter nesse fim de mundo? Ele acena brevemente ao sentinela e comprova com seus próprios olhos - o vilarejo não tem maiores atrativos, de fato. 
 

Arte por @RMangano
Ao adentrar na ruela principal, enlamaçada e fétida, pequenos casebres e alguns estabelecimentos fechados parecem um quadro pintado a óleo, sendo distorcido por tanta chuva. A taverna parece ser o único prédio com maior movimentação e afluência dos locais. Ele se aproxima e ata seu cavalo na entrada, e o que parece ser uma jovem criança humana prontamente salta da escuridão e corre em sua direção, em busca de alguma moeda de cobre para 'cuidar' do animal e seus pertences - somente para se revelar, com a proximidade, que era um halfling estranho, sem barbas, com os pés lamacentos e as mãos magras em busca de dinheiro fácil.

Assim que ele chega ao alcance ele o chuta para longe de forma brusca, e xingando, com a boca sangrenta, o pequeno ser some novamente na escuridão de um beco qualquer. Sentindo ainda mais o cansaço da viagem, ele desmonta seus pertences, descarrega seu escudo, sua mochila de campanha, verifica se a espada segue firme na bainha, respira fundo e adentra o local. 

Pouco mais de quinze locais, a maioria humanos, mas alguns (cuspe no chão) meio-orcs também podem ser vistos no canto do bar, esbravejando na sua língua horrível e bebendo aquela fermentação de ervas e partes mortas de animais que eles chamam de cerveja. O cheiro desses seres desprezíveis só não é pior do que de sua bebida.


O taberneiro, cabelos ralos e cinzentos, com somente um olho e uma dezena de cicatrizes por todo o rosto, lhe dá as boas vindas (ou algo semelhante no dialeto local) e oferece uma bebida, sem muitas cerimônias. As pessoas aqui não parecem temer muitas coisas.

O fim do mundo, afinal, parece não oferecer muitos perigos. Ele senta no banco livre em frente ao taberneiro, aceita o caneco (não sem antes cheirar profundamente, afinal, é preciso ter cuidado em qualquer região do condado nesses tempos), e após sorver em um só gole a cerveja quente (que, incrivelmente, não era de todo ruim), ele respira fundo novamente, e chama o taberneiro.


Sem mais delongas, faz a pergunta que, na dureza e dificuldade da estrada, só pensava em fazer. O taberneiro, possivelmente com dificuldades para ouvir, se esgueira de trás do balcão, chega mais perto e aperta o ouvido para escutar melhor o que ele tem a dizer. Subitamente, as palavras entram em seus ouvidos e na mesma fração de segundo, o velho arrepia dos pés a cabeça e, em um só salto, se afasta do balcão prontamente. Seu movimento brusco de recuo só não é mais surpreendente que a expressão de seu rosto, um misto de terror, respeito e admiração, como você nunca tinha visto.

A palavra proferida nas ruelas da cidadela, sempre à boca-pequena por grupos suspeitos e estrangeiros, era algo sagrado ou profano? Trazia alegria ou receio? Os locais não ousam falar, as mulheres cobrem os olhos e ouvidos, ou cantam louvores sob a luz da lua cheia?

No fundo do bar, delatado pelo seu inconfundível sacar de armas trôpego e fedorento, os meio-orcs se levantam, como se soubessem que algo foi alterada na estranha ordem que regia aquele vilarejo no fim do mundo. Incrédulo, o taberneiro, após um momento que parecia uma eternidade, com uma voz trêmula e carregada de significados incompreensíveis para um estrangeiro como ele, diz: 

Você... disse... CAPIM-LOUCURA?

 

 

Conto escrito por Nando Rosa

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