Contos Cartélicos: Origens Desconhecidas - Parte II

Mal ouviu o fim da frase e apagou. Aquela noite o jovem e promissor marinheiro descansou e sonhou, sonhou com mais trago, com orgias, um convés cheio de ouro cerveja e mulheres. Sonhou com fartura, carne assada e música, com tetas esfregadas na sua cara, cheirando a jasmim e mel... e então acordou! Acordou como se não estivesse há dias sem comida e sem água. Sua saúde estava restaurada e suas mãos e pés, apesar de “enrolados” nas correntes, estavam soltos. A sua frente ainda estava a criatura, palitando os dentes com a faca. 

- Antes que você se solte, saia correndo e faça uma merda, me deixe dizer uma coisa ou duas, guri... você pode pegar essa faca agora, subir como um louco ao convés e tentar matar sozinho os 20 ou 30 piratas que tomaram seu navio. Seus companheiros, os que sobreviveram, estão lá em cima trabalhando pra eles em troca das suas vidas, e não serão de grande ajuda nessas condições – disse apontando para os demais marinheiros moribundos e cuspindo no chão. 

- Com o acordo que fizemos ontem – e o jovem olha o corte na mão e lembrou que nem tudo foi sonho -  lhe garanto saúde até que esse navio pare em alguma ilha para que eles descarreguem seus saques, depois é por tua conta. Porém, estou disposto a fazer outro acordo contigo – e ele fez que sim com a cabeça, ainda sem dizer uma só palavra. 

- Então me ouça bem, garanta que eu não fique um dia sem cerveja e sem comida aqui embaixo. Você conhece bem esse navio e se for esperto mesmo vai conseguir sem grandes problemas. Fico mais generoso quando tenho cerveja e isso pode lhe favorecer no futuro. 

E assim, Bartholomew Edward Roberts firmava seu segundo acordo com o diabo, ainda sem saber o quanto teria que pagar por isso. Nas noites seguintes, se esgueirou como um rato sedento pelo navio, e conseguiu trazer cerveja e comida para o capiroto, mas trouxe também para si e seus colegas.

O abandono dos prisioneiros para morrerem lá embaixo fazia passar despercebida a recuperação de alguns tripulantes. Depois de algumas noites tendo sucesso, ao tentar novamente invadir a adega, foi percebido por um dos piratas que mijava contra o vento, por cima da amurada do convés e teve de matá-lo.

Era a primeira vida que tirava, e não pareceu lhe dar nenhum remorso quando jogou o corpo sebento do pirata ao mar. Assim foi também quando matou o segundo, e vendo que a viagem ainda teria alguns dias e que não poderia escapar todas as noites ileso, começou a delegar a função para os companheiros que começavam a se recuperar. 

Um jovem franzino, que quase não tinha carne nos ossos, e que não sabia como havia sobrevivido tanto tempo naquele porão, ficou encarregado de buscar comida e bebida e nunca foi pego. Outro mais forte, fazia a vigia da porta e de vez em quando se misturava aos que trabalhavam no convés para contar que uma rebelião se armava nas entranhas do navio, bem debaixo das barbas fedidas dos piratas, que eram selvagens e eficientes em abordar, matar e roubar, mas não eram muito inteligentes e deixavam muitas áreas sem vigilância no navio. E assim, Caralimpa criou seu reino particular em poucos dias naquela parte escura e fétida do navio. Roubou, matou, ameaçou e nos seus pensamentos culpava o diabo pelo monstro que se tornara. Perguntava a si mesmo se conseguiria voltar para casa, caso realmente sobrevivesse, ou se não seria melhor tocar fogo em tudo aquilo e morrer, pelo menos levando as almas dos malditos piratas para o inferno junto com ele. Talvez esse tenha sido o plano do capeta desde o início... 

A viagem se estendia, parecia interminável, e nos dias que se passaram a notícia se espalhou. Os homens de Bart Caralimpa se organizaram e até conseguiram apoio de alguns piratas insatisfeitos com o atual comando, em troca da promessa de ouro inglês e Cartas de Perdão da Coroa, que com certeza nenhum deles sabia se teria como pagar. Nesse tempo todo o Troca Peles não falou mais com Bartholomew, ficava lá comendo, tomando cerveja e contando causos aos outros insurgentes, que riam de suas façanhas como se não vissem os chifres e o rabo do encarnado. 

E a retomada do navio, quando finalmente aconteceu, foi tão rápida e sangrenta como da primeira vez, apenas agora ela vinha de dentro pra fora. Caralimpa comandou aqueles homens com selvageria, como se fosse acostumado com tais escaramuças! A peleia foi feia, aço furando carne, gritos e o furor da batalha, tripas, sangue e bosta se espalharam pelo convés, mas os homens de Bartholomew, aliados aos piratas traidores conseguiram o controle do navio sem fazer prisioneiros, e agora precisavam decidir para onde levá-lo. Estavam muito ao sul da sua rota original, longe da Inglaterra e provavelmente não teriam provisões para voltar todo o trajeto. 

- Bom, está na hora de me pagar – disse o coisa ruim, com o sorriso mais arreganhado. 

Sabia desde o início que aquele não era um bom negócio e que essa hora chegaria, só não achou que seria tão cedo. Perguntou se o diabo levaria só a sua alma ou a de toda tripulação. Sabia que depois de tudo que havia feito e se tornado, sua alma não teria redenção como aprendera na igreja, com certeza não morreria como um bom Cristão. Ouviu uma gargalhada como resposta. 

- Alma? Quem falou em alma garoto? Eu quero apenas uma carona! 

Confuso, Caralimpa lhe perguntou sobre as atrocidades que o diabo lhe havia mandado fazer para condenar a sua alma. Com certeza havia tramado aquilo como picareta que era! E pela primeira vez o semblante do diabo se fechou, faíscas saíram dos seus olhos sem pupilas e com uma grave voz ele disse: 

- EU MANDEI?! Tu tá até loco! – e o convés tremeu e se silenciou – Eu te curei e te soltei, prometi que chegaria vivo a primeira parada. Pra isso pedi apenas cerveja, comida e uma boa plateia, pois estava entediado... o resto foi contigo! Meus conselhos foram pra não fazer merda e se matar, se não me falha a memória. Quem quis mais e mais, não fui eu não. Tu fez por ti, só por ti – e voltou a sorrir, mas agora com malícia e sabendo que tinha razão. 

E Bartholomew, no fundo, sabia que essa era a verdade. Ele sempre foi capaz de aproveitar as oportunidades que surgiam, e dessa vez não foi diferente. Talvez essa violência que aflorou já estivesse lá, esperando pra sair e a situação só adiantou o processo. “Quem peca não é o diabo, é o homem”, pensou.  

- Estamos bem longe da tua casa, se é que ainda pode voltar pra Inglaterra. Pelo que sei, como 2º Imediato do navio, voltando pra casa com seu capitão e metade da tripulação morta, aqueles engomadinhos de peruca e maquiagem podem muito bem acabar te mandando pra forca pra evitar a burocracia e as explicações a Coroa. Você e seus homens, que agora se misturaram aos piratas, são um estorvo para o seu reino... 

E mais uma vez ele sabia quem estava certo. Não podia voltar, seria julgado, e mesmo que se livrasse da forca, poderia ser taxado de fraco, azarado, traidor, amigo dos piratas, nunca mais trabalharia num navio honrado. Ou pior, se contasse a verdade (toda a verdade) seria um herege, amigo do diabo, um mal agouro sem alma. Então, não havia dúvidas do que fazer, ele tinha um navio, uma tripulação e devia uma carona para o diabo, só não sabia para onde. Ele se tornaria um pirata, pois aqueles homens agora lhe deviam a vida e confiavam nele e ele teria que prover a eles, como senhor do navio, tudo aquilo que sonhara ao beber da garrafa do capeta boa gente: ouro, comida, cerveja e mulheres! 

- Quanto à minha carona, ouvi falar de uma tal Colônia de Sacramento, bem pro sul daquelas terras que Portugal explora, o nome me agrada e acho que posso gostar de lá... e pra vocês, pode ser a chance de fazer negócio longe da Inglaterra e da caça aos piratas. 

Enquanto rumavam para as Américas, para longe da Europa e de todo seu passado, estava Caralimpa em frente a um espelho que pertenceu ao antigo capitão do navio, prestes a fazer a barba para retomar seu antigo visual, quando ouviu aquela voz cheia de safadeza do diabo do navio. 

- Escuta, antes de desembarcar vou te dar só mais um pouco da minha sabedoria! Para de raspar essa porra dessa barba! Nunca que tu vai ganhar respeito como pirata com essas bochechas rosadas e o nome de Caralimpa! E nem de Bartholomew, isso é nome de padre! Tu tem outro nome? – e ele respondeu – Pois é isso, esquece esse Bartholomew! E deixa crescer essa bela barba negra na cara que vai te dar mais moral como capitão! Vai por mim que eu sei o que tô falando... 

E assim foi feito, Bartholomew havia morrido no mar. Restava apenas um capitão pirata, com um navio, uma tripulação e uma bela barba negra crescendo. O diabo tinha novas fronteiras a desbravar e o resto é história!

 

 

Conto Cartélico escrito por Lucas Rosa, se curtiu deixa um comentário aí pra nós!

3 comments

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